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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Liberdades de Expressão e Informação ou A Diferença Entre Censurar e Manipular

O filme Good Bye Lenin de Wolfgang Becker foi (parece-me), comentado, apreciado e explorado com alguma profundidade durante as duas últimas sessões. A profundidade suficiente para não fazer sentido dizer mais do mesmo. Gostava só de tocar uma questão, abordada no filme, profundamente característica dos regimes políticos ditatoriais: a sonegação das liberdades de expressão e informação.

Partindo da premissa elementar de que um sistema político totalitarista assenta grande parte da sua força no rigoroso controlo da informação, é natural que procure, por um lado, veicular uma versão dos acontecimentos, que é a sua, produzida e propagandeada de forma a atingir objectivos bem definidos e necessários à manutenção do status quo; e pelo outro, impedir que informação não filtrada chegue do exterior, ao mesmo tempo que controla a produção doméstica recorrendo a processos de purga e censura, obrigatórios antes de qualquer divulgação pública.

Parece que foi há muito tempo que Maria Velho da Costa escreveu uma ‘Ova Ortegrafia’, na qual explica que «Ecedi escrever ortado; poupo assim o rabalho a quem me orta...».

Parece que passou muito tempo, sobretudo porque nenhum de nós se pode hoje queixar de dificuldade no acesso à informação, de falta de meios de comunicação, de atropelo à liberdade para dizer, escrever, ler ou ouvir o que entende. Tendo em conta a passagem de um cenário para o outro, a questão que eu gostaria de levantar é a seguinte:

Com tanta informação disponível, estaremos apetrechados da utensilagem mental necessária para fazer a triagem daquilo que é relevante no meio de tanto ruído? Somos senhores da sagacidade, do espírito crítico e da capacidade de análise necessários para perceber em que momentos nos estão a bombardear com determinado assunto para que outro vá passando despercebido? Ou será tudo isto apenas uma nova (e tecnologicamente mais elaborada) estratégia de controlo da informação que consumimos, assimilamos e produzimos?

Não tenho resposta, por isso deixo ficar a pergunta.

Raquel Patriarca

vinteesete.maio.doismilenove

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Goodbye Lenin!

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Goodbye Lenin!

Título: Goodbye Lenin!

Ano: 2003

Duração: 118 minutos

Realizador: Wolfgang Becker

Escrito por: Bernd Lichtenberg e Wolfgang Becker

Actores principais: Daniel Brühl, Katrin Sass, Chulpan Khamatova, Maria Simon, Florian Lukas, Alexander Beyer

.O Filme

Christiane Kerner é uma mulher que vive na República Democrática da Alemanha, sozinha com os seus dois filhos, depois de o seu marido ter fugido para o Ocidente. Com o tempo, decidiu abraçar o socialismo, tendo-se tornada num membro leal e devoto do partido. No dia 7 de Outubro de 1989, após ter visto o seu filho Alex protestar pela liberdade de imprensa, Christiane sofre um ataque cardíaco que a deixa em coma profundo durante oito meses. Quando acorda, o muro de Berlim já não existe. Nem o seu país socialista. Para salvar a mãe, Alex decide ocultar todos os factos políticos, recriando o mundo como era nos 79 metros quadrados do seu apartamento. Realizado por Wolfgang Becker, este filme é a história de um filho que procura o milagre de salvar a sua mãe e fazê-la acreditar que Lenine conseguiu triunfar.

Exploração do filme

O filme desenrola-se na Berlim Oriental, nas vésperas da queda do muro que a separava do Oriente. Vivem-se os últimos dias da Alemanha dividida em duas partes, entre o mundo capitalista do Ocidente e o bloco socialista da RDA. Goodbye Lenine! retrata a transição de uma sociedade cujos bens e produtos obedeciam a regras impostas pelo regime socialista (da roupa às bebidas, dos alimentos aos automóveis), para uma nova sociedade de consumo, livre, das grandes marcas internacionais (Coca-Cola, IKEA, Burger King…).

1. República Democrática Alemã, bloco soviético: os primeiros minutos do filme apresentam alguns dos aspectos da Alemanha de Leste, importantes para que se perceba o clima de repressão e de controlo sobre os cidadãos. Christiane Kerner (minuto 3) é visitada por dois agentes que perguntam por que razão o seu marido viaja tanto para o Ocidente Capitalista, e se estariam a preparar a fuga. Mais adiante no filme, este episódio é recordado por Christiane Heiser (1h27m), que refere que o seu marido sofria pressões no trabalho por não ser do partido. Algumas características deste Estado (minuto 8), de cariz militar, são visíveis durante a celebração do 40º aniversário da DDR – Deutsche Demokratische Republik (República Democrática Alemã). A repressão (minuto 12) surge novamente quando a polícia avança sobre uma manifestação pela liberdade de imprensa, que levou à prisão de Alex Kerner. A vida durante o socialismo surge ao longo do filme, sobretudo por oposição às transformações geradas pela queda do muro de Berlim.

2. Queda do Muro de Berlim, Alemanha unificada: são vários os exemplos de mudança que o filme apresenta, tanto no plano político como social. Logo após as imagens da agitação política, com a demissão de Erich Honecker (secretário-geral do Partido da Unidade Socialista e presidente do Conselho Estatal da RDA – minuto 17), e o fim do regime, com a queda do muro de Berlim, o filme apresenta uma sucessão espantosa de imagens que ilustram a transição da ex-RDA para o capitalismo: as eleições livres (minuto 18), as transformações culturais (vida nocturna, pornografia, músicas alternativas (minuto 23), danças orientais, vestuário), e a introdução de novas marcas e novos hábitos (Coca-Cola, Burger King, instalação de parabólicas – “praticantes da reunificação” (minuto 25) – e a diminuição progressiva do controlo de fronteira). Com o desenrolar do filme, os novos padrões de vida são apresentados em clara antítese com a vida que existia nos 79 metros quadrados do quarto de Christiane Kerner: publicidade no prédio (Coca-Cola), zeppelin, mercado de velharias. Por fim, Goodbye Lenin! é intervalado por sucessivas alusões às transformações económicas: desvalorização da moeda da RDA e a troca pelo marco Alemão do Ocidente; e a diferença do preço dos serviços (43 marcos era o preço da renda na Alemanha de Leste, o equivalente ao preço do serviço de telefone no Ocidente). Um outro aspecto relevante é a fuga de médicos e de pessoas para o lado oposto do muro, e a mudança radical nos bens de consumo (as casas com novas mobílias, as pessoas com roupas diferentes, os carros já não são o convencional Trabant, mas BMW, Mercedes, e outras marcas importadas). Simbolicamente, quando a Alemanha vence o campeonato do mundo de futebol, em 1990, há uma bandeira com o centro cortado, onde outrora estava o símbolo da RDA (1h08m). Em pouco tempo, a vida da RDA socialista desapareceu.

Personagens históricas

- Sigmund Jähn (1937-): o primeiro cosmonauta Alemão
- Erich Honecker (1912-1994): secretário-geral do Partido da Unidade Socialista e presidente do Conselho Estatal da RDA
- Mikhail Gorbachev (1931-): último secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, e um dos contribuidores para o fim da Guerra Fria
- Helmut Kohl (1930-): chanceler de 1982 até 1998 e um dos responsáveis pela reunificação da Alemanha

Para saber mais
Artigo sobre Goobye Lenin! de Julian Kramer (jornalista de política internacional)
Goodbye Lenin! no IMDB